1:4 e a violência obstétrica

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E é assim que começa a história de um projeto fotográfico que busca retratar uma triste realidade: a violência obstétrica.

Mas o que é essa violência?
É toda aquela que se manifesta antes, durante ou após o parto. Pode aparecer em alguns atos tais como a proibição de acompanhantes no quarto, imposição de procedimentos cirúrgicos que ás vezes são desnecessários, separação compulsória de mãe – filho – pai e, é claro, zombaria por parte de alguns profissionais que vêem o parto como algo banal e por conta disso se sentem no direito de desprezar aquela mãe que espera ansiosamente pela chegada do seu filho.

Nos últimos anos muitas mulheres que foram vítimas de violência obstétrica romperam o silêncio e denunciaram médicos, enfermeiras e assistentes hospitalares que, muitas vezes, cometem esse crime sem nem saber do que se trata. Pra se ter uma noção, entre 2009 e 2012, a Comissão de Direitos Humanos recebeu 122 queixas relacionadas a essa brutalidade que transforma um dos momentos mais emocionantes na vida de uma mulher em um trauma.

Gráfico via Revista Fórum

Gráfico via Revista Fórum

“Algumas mulheres até entendem como violência, mas a palavra é mais associada a violência urbana, física e sexual” diz a psicóloga Janaína Marques de Aguiar, que entrevistou puérperas (com até três meses de parto) e profissionais de maternidades públicas de São Paulo para dar fundamento a uma tese que foi inteiramente voltada aos casos de violência obstétrica.

Nesse sentido, Carla Raitter e Caroline Ferreira resolveram juntar as suas vocações artísticas (uma é fotógrafa e outra é produtora cultural) para fazer um projeto fotográfico que busca mostrar ao mundo que a violência não é apenas aquela ligada aos elementos citados pela psicóloga e também para dar um espaço no qual as mães que sofreram com esse tipo de trauma pudessem “colocar para fora” aquilo que sentem.
O Blog Venturarte entrevistou as duas idealizadoras do projeto para que você entenda melhor os objetivos e pretensões do “1:4 Retratos da Violência Obstétrica”.

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Carla Raitter contou que o 1:4 é, essencialmente, um projeto fotográfico que tem o objetivo de denunciar a violência obstétrica. “Nossa luta acontece em várias frentes: disseminar informação, curar feridas, fortalecer redes de apoio, tirar o assunto do escuro, incentivar a discussão e também a denúncia aos órgãos competentes”.
Ela disse que para cada relato recebido, elas fazem a leitura e seleção de um ou mais trechos que sintetizam as violências praticadas ou as impressões e memórias que ficaram. Em seguida, entram em contato com a mulher e a convidam para para ser fotografada. “A proporção de fotografias já realizadas é bem pequena perto da quantidade de relatos que já temos, porque ainda estamos trabalhando de forma totalmente independente e autofinanciada. Existem barreiras financeiras e de tempo livre que ainda não nos permitiram ir para outras cidades mais distantes.”

Quanto à produção das fotografias, Carla diz que é simples: ela trabalha com os ambientes e com a luz disponível na casa de cada mulher e procura incluir elementos do seu cotidiano quando isso é possível. “Levo a tatuagem temporária já preparada com os textos que selecionamos, aplicamos na hora e fazemos as imagens”.

Quando questionadas a respeito da proveniência da ideia para criar o projeto, Caroline Ferreira contou que sofreu com a violência obstétrica há 11 anos quando sua filha Luísa nasceu. “Eu sentia que alguma coisa estava errada, mas nem podia nomear o que tinha acontecido. Isso só veio muitos anos depois – com a internet, com informação e com o envolvimento da Carla na causa do parto humanizado”.  Ela disse que abraçar o projeto foi algo muito natural, pois foi um momento no qual ela pensou “olha, eu posso fazer uma coisa boa, produtiva e bonita com a minha experiência.”
Carla, por sua vez, deu a luz ao seu filho Gael há dois anos atrás por meio de um parto domiciliar, humanizado e respeitoso. Caroline arriscou dizer que por conta disso o projeto tem duas metades, as experiências de dois mundos. “Daí veio a necessidade mútua de dar forma, cor e voz pra essa violência tão ignorada. De levantar a bandeira mesmo… de levar informação e prover um meio pra curar feridas”.

A respeito desses dois mundos, Carla Raiter concordou. “Temos as duas metades e isso vale tanto para a idealização do projeto e para a motivação de cada uma em fazê-lo acontecer como na divisão de tarefas: a Caroline tem toda a experiência de produção que coloca a mão na massa, faz planilhas, contata as pessoas e tabula as informações; eu jamais conseguiria tocar isso sozinha (risos).Minha motivação para a criação do projeto tem raiz na minha militância pelo parto humanizado, que começou durante minha gravidez, em 2010, cresceu depois do meu parto, em 2011, e ganhou ainda mais força logo depois, quando comecei a fotografar partos humanizados”. Carla disse que sempre quis fazer algo que pudesse contribuir para a mudança de cultura e para melhoria do atendimento ao parto no Brasil. “O Projeto 1:4 foi o jeito que encontrei de fazer isso. Então hoje trabalho com as duas pontas dessa corda: o parto humanizado, respeitoso, que a mulher leva como uma lembrança linda e incrível, e a violência obstétrica, que deixa essas marcas, que torna o parto uma experiência negativa a ponto de algumas mulheres afirmarem que não querem ter mais filhos para não passar de novo por isso. É muito triste esse contraste. Cada vez que eu fotografo um parto, lembro dos relatos que chegam por meio do Projeto 1:4, e em cada um deles sinto algo quebrar dentro de mim, pensando em como já vi desfechos tão diferentes para uma mesma história”, contou a fotógrafa.

Considerando que o projeto está todo compilado na internet por meio do site oficial e do Facebook, Caroline disse que existe sim a pretensão de fazer tudo isso ir além… “A violência obstétrica acontece em todos os lugares, em pouco mais de 40 dias já recebemos relatos de todas as regiões do país e hoje nosso alcance ainda está restrito à internet, o que exclui uma porção enorme da população que está fora dos grandes centros urbanos e que, muitas vezes é vítima e nem se reconhece como tal, porque falta informação e redes de apoio”, disse ela. Ainda existe a possibilidade das duas viajarem o país fotografando e expondo os seus trabalhos e para isso elas estão se dedicando para formatar toda essa itinerância.

Embora tenhamos ciência das histórias através da fotografia já finalizada, é impossível não se comover com as mesmas e em relação a essa comoção, as idealizadoras são unânimes ao declarar que todas as histórias mexem com elas.
Caroline Ferreira disse que não existe parâmetro para classificar o sofrimento de alguém como maior ou menor e que a carga emotiva envolvida no projeto é intensa. “Não raro, tenho crises de choro incontroláveis e preciso dar uma pausa antes de recomeçar. Depois de cada relato e de cada foto, pra mim, os sentimentos são bem semelhantes: me choca a falta de humanidade com que as mulheres e seus bebês são tratados; a constatação de que somos ainda uma sociedade fortemente institucional, patriarcal e machista; a percepção geral de despreparo das equipes médicas em todas as regiões e nas esferas públicas e privadas de saúde”.
Carla aponta que talvez uma das razões principais para que ela se emocione com o projeto é: ela conhece o outro lado e sabe que a violência obstétrica não é nada normal. “Eu tive um trabalho de parto do qual sinto saudades do começo ao fim e que me traz ótimas lembranças;  já fotografei dezenas de experiências semelhantes. Lidar com o outro lado é muito triste, todas as histórias me comovem muito”.

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Confira abaixo algumas fotos do projeto (clique nas imagens para ampliá-las).

Episiotomia, um procedimento bastante citado no projeto, consiste numa incisão feita na região do períneo (área muscular entre a vagina e o ânus) para ampliar o canal de parto e prevenir que ocorra um rasgamento irregular durante a passagem do bebê. Deveria ser realizado em casos de extrema necessidade, mas infelizmente para alguns médicos é um procedimento rotineiro e, muitas vezes, a paciente não consente com o mesmo.

Diante de todas essas informações e dos retratos contidos no projeto descrito na presente matéria, uma coisa fica clara: a violência obstétrica existe, não deve ser tratada como normal e deve ser combatida. Parto não é sinônimo de dor e sofrimento…
Se você foi vítima dessa violência, saiba que está amparada pelo Código de Ética Médico. Portanto, busque a tutela jurídica de um advogado e clame pelos seus direitos!

Mais reportagens importantes sobre o assunto – e que, de certo modo, nortearam essa matéria:
Violência obstétrica: sim, ela existe em Cascavel – CGN

Na hora de fazer não gritou – Revista Fórum

Como se proteger da violência obstétrica? – Vila Mamífera


Internautas relatam abusos após jornalista denunciar a violência obstétrica no Brasil – Revista Fórum

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2 pensamentos sobre “1:4 e a violência obstétrica

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