Não é só coisa de criança!

Dentro do cinema, as animações são consideradas um gênero à parte dos demais, podendo ser inclusive rotulado como um gênero infantil. Porém não é de hoje que desenhos animados, de curta e longa metragem, têm como alvo o público adulto. Desde os primórdios do cinema, quando as exibições ainda eram mudas, já havia filmes do gênero que não eram voltados ao público infantil. Inclusive grandes gênios do cinema mudo chegaram a trabalhar com o estilo animado, como o soviético Dziga Vertov, no ano de 1924, com o filme “Soviet Toys”.

Soviet Toys (Dziga Vertov, 1924 – URSS).

Quando o assunto é desenho, não podemos deixar de lado o mestre Walt Disney, que, com sua primeira animação, teve uma das produções mais caras da época: 1,5 milhão de dólares. “A Branca de Neve e os Sete Anões”, de 1937, trata de questões profundas e complexas, que os pequeninos que assistem deixam passar. Branca de Neve mora somente com o pai, que se casa com outra mulher. Esta não suporta a presença do esposo, quem dirá da enteada, tendo se casado somente por interesse. Uma vez o homem morto, para não dividir suas posses e riquezas, manta matar a garota, que foge de casa numa tentativa de salvar sua vida. É uma história pesada para uma criança assistir, e muito densa para compreender seu real significado.

“A Branca de Neve e os Sete Anões” (Walt Disney, 1937).

Outro filme, também da Disney, que não é nem um pouco infantil é “O Rei Leão”, de 1994. Ele leva o sistema monárquico ao mundo animal para poder tratar de assuntos intensos até mesmo para adultos. Um irmão mata o outro para tomar seu lugar no trono, e para ter certeza de que não será deposto, manda matar o sobrinho. O príncipe consegue fugir e passa a viver praticamente na miséria por muitos anos, até atingir a idade adulta. Sua prima, por parte da família da mãe – portanto não é uma das herdeiras do trono – é obrigada a buscar alimento fora das terras do reino e acaba encontrando o jovem, que estava sendo considerado como morto. A garota vê nele a esperança encarnada e o convence a tomar seu lugar de direito. Porém, para isso ele deverá matar o próprio tio, irmão de seu pai, sangue de seu sangue. As crianças podem não perceber, mas não há nada de fofo na história que elevou o felino ao posto de rei da selva. E essa é só o enredo principal, ainda tem-se questões como a igualdade entre diversas raças, os felinos superiores e os inferiores, entre outros.

“O Rei Leão” (Walt Disney, 1994).

Cover of "Spirited Away"

Cover of Spirited Away

Pulando agora para o Oriente, mais especificamente o mundo das animações, o Japão. Um dos cineastas na área de animação mais reconhecidos mundialmente é Hayao Miyazaki, criador de “Princesa Mononoke”, “A Viagem de Chihiro”, “O Castelo Animado” e “Ponyo”, entre outros, sendo “A Viagem de Chihiro” o mais famoso, chocando o mundo (ocidental, principalemnte) ao misturar elementos fantásticos à cultura tradicional japonesa. O diretor aborda temas de solidão, sacrifício, companheirismo e escravidão em um filme que poderia muito bem ser alugado em uma locadora por uma vovó querendo divertir seus pequenos netinhos. Não que não possa ocorrer, porém as crianças podem vir a se assustar e a ter pesadelos durante a noite.

“A Viagem de Chihiro” (Hayao Miyasaki, 2001 – Japão)

E por último, mas não menos importante, “Ghost in the Shell” e “Akira”, dois filmes que mudaram não só a maneira de se criar animações, mas também influenciou inúmeros filmes de ficção científica, incluindo a saga “Matrix”. “Ghost in the Shell” trata de inteligência artificial, em uma Tókio de 2029, onde é quase impossível o discernimento entre seres humanos e robôs, e onde esses já possuem sentimentos e relações praticamente humanas, e um grupo seleto de cientistas está desenvolvendo almas para os robôs. As máquinas já controlam metade do mundo e ocupam cargos de alta importância, e começam a se questionar a respeito de seu papel no mundo.

“Ghost in the Shell” (Mamoru Oshii, 1995 – Japão)

Cover of "Akira [Blu-ray]"

Cover of Akira [Blu-ray]

“Akira”, 1988, também possui um tom meio apocalíptico, quando uma nova Tókio é construída por cima dos destroços nucleares da antiga, e esta nova sofre atentados terroristas.

O governo mantém crianças com poderes especiais trancadas em um hospital, onde são feitos exames e uma série de testes, usando-as como cobaias. É um filme muito violento, tal qual o anterior, e além de envolver um pouco do fantástico, possui uma boa parcela de política e ficção científica, assuntos pouco inteligíveis pelo público infantil.

“Akira” (Katsuhiro Ôtomo, 1988 – Japão).

Esses, como tantos outros, são filmes que, por mais antigos que possam ser, e por mais infantis que suas histórias possam parecer, continuam tão atuais como no dia em que foram criados, pois, além de abordarem temas universais, abordam de maneira complexa e profunda.

Anúncios

Deixe aqui o seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s