Da tinta à luz! (parte 2)

O Venturarte hoje irá falar um pouco mais a respeito de filmes que foram adaptados da literatura. Duas semanas atrás, o foco foi nas histórias fantásticas de “Senhor dos Anéis”, “Harry Potter”, “As Crônicas de Nárnia” e de “Eragon”. Agora o foco será em histórias mais realistas, considerando-se que dos quatro filmes abordados, todos se passam no nosso mundo.

Uma das principais adaptações, tanto no quesito qualidade quanto no quesito sucesso de público, é a trilogia “O Poderoso Chefão”, onde um único livro deu origem a três filmes, dos anos 1972, 1974 e 1990. O livro, escrito por Mario Puzo em 1969, conta a história de como Don Vito Corleone, chefe de uma das famílias da máfia estadunidense, passou seu legado para o filho Michael Corleone. Mike, o mais novo dos filhos de Don Corleone, era o único que não tinha pretensão de seguir os passos do pai, porém devido a algumas desavenças, que colocaram em risco a vida de sua família, foi obrigado a assumir os negócios da família. No livro, esta é a história contada, com um pequeno intervalo nos capítulos centrais que narram o começo da vida de Don Vito Corleone, antes de levar o nome de sua cidade natal (Corleone) como sobrenome. O primeiro filme é sobre a ascensão de Mike ao poder; o segundo é sobre como estabilizou os negócios da família, na tentativa de torná-la completamente legal perante a lei, em paralelo com a história de como Don Vito chegou à América; o último filme da trilogia de Francis Ford Coppola é sobre os últimos momentos de  Mike como Don da família Corleone, e como ficou o contato com sua família, eventos que não são encontrados no livro de Mario Puzo. Confira o trailer do primeiro filme da trilogia abaixo.

Outra história que ficou mais conhecida pelo filme do que pelo livro foi “Laranja Mecânica”, onde Stanley Kubrick, em 1971, faz uma brilhante adaptação da obra de Anthony Burgess, escrita em 1962. O livro narra as aventuras do delinquente juvenil Alex DeLarge, que vive numa Londres undergroud e distópica, onde a violência e o uso de drogas tomam conta da juventude. Após um assalto mal planejado, Alex acaba sendo entregue à polícia pelos membros de sua gangue e vai para uma espécie de reformatório, onde participa, como voluntário no filme e como parte da punição no livro, como cobaia de um experimento de “lavagem cerebral” para tornar-se um bom cidadão. O problema real está quando o jovem Alex é liberto e volta às ruas: sua família e seus amigos não o querem por perto, nas ruas, encontra as pessoas que o feriram e que querem se vingar, agredindo-o também. É uma história pesada, com muita violência, muito sangue, onde você sente como se houvesse levado um soco no estômago a cada cena/capítulo. O filme chegou a ser proibido em alguns países, inclusive na Inglaterra, onde inspirou vários atos de violências sexuais ao som da adorável canção “Singin in the rain”. Você pode conferir o trailer do filme logo abaixo.

Outra adaptação realizada pelo diretor Stanley Kubrick foi de “O Iluminado”, em 1980, inspirado no livro de Stephen King, de 1977. É a história de um homem contratado para ser caseiro de um hotel na montanha durante o período de neve, em que o local fica completamente isolado do mundo exterior. Jack Torrence permanece por alguns meses no hotel com sua família, e coisas estranhas começam a acontecer. Apesar de estarem completamente sozinhos, Jack Torrence, sua esposa e seu filho começam a ouvir sons de outras pessoas e eventualmente a ver também. Com um tom de fantástico (elementos que não estão presentes no nosso mundo) que pode ser confundido com delírios, o filme começa parecendo um desses filmes para a família, uma comédia leve, mas ao decorrer do enredo, o suspense, às vezes até o terror, vai crescendo de uma maneira enorme. A sensação de claustrofobia aumenta em cada cena, bem como a complexidade da trama. Ao que parece, não foi uma das adaptações mais fiéis, porém teve uma boa repercussão, pois o diretor não mudou muito da essência da história, deixando o mistério presente. Confira o trailer do filme em seguida.

E por último, algo mais recente, o musical “Les Misérables”, musical de 2012, adaptação do clássico da literatura mundial homônimo de Victor Hugo, escrito em 1862. Esta é a história de Jean Valjean, homem humilde, condenado à trabalhos pesados na prisão por roubar pão para comer, que é liberto de sua sentença e começar a fazer de tudo para se reestabelecer. Sabendo que seus documentos de detendo não lhe dariam muitas condições, passou a usar um nome falso e, com o auxílio de um jogo de prata, presente de um padre, está disposto a mudar sua vida completamente. Homem com um coração grande acaba por ser adotar a pequena Cosette e faz o possível para dar à ela a melhor educação que conseguir. Acontece que o oficial Javert suspeita de que Jean Jalvean não é quem diz ser, e passa a persegui-lo, pois se ele usa um nome falso, violou sua condicional e deverá voltar à prisão. Em meio à Revolução Francesa, é uma história de amor, é uma história de liberdade, e uma história de um homem condenado à miséria que conseguiu superar barreiras inimagináveis. O filme passou essa mensagem de maneira brilhante, passando a essência e a emoção através de belíssimas canções e coreografias. Confira o trailer logo abaixo.

Esses são poucos dos muitos exemplos que poderiam ser citados como magníficas obras, tanto literárias quanto fílmicas. Muitas vezes há um preconceito com adaptações de livros para as telonas, devido a algumas más “traduções”, porém deve-se reconhecer que vários filmes são tão brilhantes quanto as histórias de que tiveram origem e que não devem ser menosprezadas. Se puder, o blog Venturarte recomenda a leitura dos livros e o tempo investido para assistir aos filmes. Aguarde, daqui duas semanas, mais sobre cinema só para você!

Da tinta à luz! (parte 1)

Desde os primórdios do cinema, é comum encontrarmos filmes baseados na literatura. De Edgar Allan Poe a Shakspeare, de Drácula a Sherlock Homes, são várias as histórias e personagens que fazem sucesso nesse ramo da sétima arte, às vezes até sendo considerado um gênero à parte. E como diz o ditado popular, nada se cria tudo se copia, assim é no cinema também. A forma das adaptações mudou, assim como os filmes. Foi o advento do som, das cores, da tecnologia digital e assim vai, mas o que permaneceu constante foi o sucesso de adaptações para as telonas. Dentre o gênero de adaptações, podemos criar vários sub-gêneros, ou classificações menores, como por exemplo mundos fantásticos, considerando aqui como fantástico histórias que levem o leitor/espectador para outro mundo que não o nosso, ao qual estamos acostumados, mais precisamente mundo de fantasia. Assim sendo, os filmes de super-heróis, por exemplo, ficarão fora desse texto, podendo ter mais tarde sua própria publicação.

Para começar, talvez o grande ícone de adaptação seja a trilogia “Senhor dos Anéis”, onde cada livro de cerca de seiscentas páginas deu origem a um filme de cerca de três horas e meia. Escrito por J. J. R. Tolkien entre 1937 e 1949, era para ser inicialmente um livro só, que se chamaria “O Senhor dos Anéis”, porém devido a sua longa extensão, o escritor juntamente com seus editores acharam melhor dividir a obra em três livros, “A Sociedade do Anel”, “As Duas Torres” e “O Retorno do Rei”. A trilogia narra a aventura de Frodo e seus companheiros na grande jornada à Mordor para destruir um poderoso anel que ganhou de seu tio. No trajeto, alguns amigos ficam para trás, inimigos novos aparecem a cada momento e é uma história incrível e envolvente, reunindo homens, anões, elfos, hobbits, magos, entre outras criaturas da Terra Média. O filme não é diferente, porém algumas tramas paralelas foram cortadas para que fosse possível uma adaptação menos cansativa. Abaixo, você pode conferir o trailer da trilogia.

Seguindo a mesma linha, não podemos deixar de lado o bruxo Harry Potter, que rendeu sete livros e oito filmes. Escrito por J. K. Rowling entre os anos de 1997 a 2007, sendo eles “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, “Harry Potter e a Câmara Secreta”, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”, “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” e “Harry Potter e as Relíquias da Morte”. A saga conta a história do bruxo Harry que luta contra o Lorde das Trevas, bruxo que matou seus pais e outros milhares de outros bruxos. Harry é o único que pode matá-lo, foi o único que sobreviveu a um ataque do Lorde e parte da magia “do mal” ficou no garoto, criando uma espécie de conexão mágica entre os dois. Para ajudá-lo em sua difícil missão de lutar contra o terrível vilão, Harry conta com a ajuda de seus melhores amigos Rony Wesley e Hermione Granger. Os filmes em sua maior parte se mantiveram fiéis aos livros, não só pelos enredos mas também pelo clima e densidade que vão mudando com o passar dos anos. Cada livro representa um ano na vida do bruxo, e o acompanhamos dos 11 aos 17 anos, aproximadamente. O primeiro livro possui um tom mais leve, mais ingênuo, pois assim como nós, o pequeno bruxo está conhecendo o mundo da magia. Conforme ele cresce, os livros vão ficando mais pesados, amigos queridos morrem, histórias assustadoras são reveladas e o suspense de como tudo acabará aumenta. E assim é nos filmes. E agora um fator interessante. A saga, tanto livros quanto filmes, acompanhou uma geração que cresceu junto com Harry e seus amigos. O amadurecimento do personagem acompanhou o amadurecimento de seus leitores/espectadores, o que é algo fantástico. Abaixo, você poderá assistir ao trailer do primeiro filme.

É interessante lembrar também de “As Crônicas de Nárnia”. Escrita por C. S. Lewis, de 1949 a 1954, a série é composta por sete livros, usando diversas referências, do cristianismo à mitologia nórdica e grega, além de vários contos de fadas. Os sete livros são, em ordem de publicação, “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, “Príncipe Caspian”, “A Viagem do Peregrino da Alvorada”, “A Cadeira de Prata”, “O Cavalo e Seu Menino”, “O Sobrinho do Mago” e “A Última Batalha”. No geral, são crianças que se transportam para o mundo de Nárnia, onde animais falam, existe um certo tipo de magia ou poder, e coisas fantásticas acontecem durante as batalhas entre o bem e o mal. As crônicas já ganharam diversas adaptações, para rádio, televisão e teatro antes de chegar ao cinema. Mais recentemente, a série ficou conhecida pela versão para as telonas realizada pela Walden Media em 2005, quando chegou aos cinemas “As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, com um total de 745 milhões de dólares arrecadados mundialmente. Três anos depois, é lançada a continuação da série, “As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian”, arrecadando um total de 141 milhões de dólares. O terceiro e último filme lançado foi “As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada”, em 2010. Você pode conferir o trailer de “A Viagem do Peregrino da Alvorada” abaixo.

E para finalizar a primeira parte das adaptações literária abordadas pelo Venturarte, a adaptação de “Eragon”. Escrita por Christopher Paolini, a série, conhecida como “Ciclo da Herança”, possui quatro livros, sendo eles “Eragon”, “Eldest”, “Brisingr” e “Herança”, este último lançado recentemente. A série conta a história de Eragon, o último Cavaleiro de Dragão e que, portanto, tem a difícil missão de derrotar o demoníaco Galbatorix, o homem que matou os últimos dragões. Em um reino onde elfos, anões e outras criaturas mágicas, há a luta entre o bem e o mal, há espionagem e questões familiares profundas – Eragon não conheceu seus pais, foi criado por seu tio em uma fazendo num vilarejo no meio das montanhas; em sua jornada, descobre Murtagh, que além de ser seu irmão é filho de Galbatorix. A adaptação para as telonas, em 2006, não rendeu o esperado, até porque diverge bastante da história original, o que fez com que os outros livros não fossem adaptados. Você pode conferir o trailer abaixo.

Esta foi só a primeira parte. Daqui duas semanas, o blog Venturarte irá voltar com mais informações sobre adaptações literárias. Aguarde!

Universum Film Aktiengesellschaft (UFA)

A Universum Film Aktiengesellschaft, mais conhecida como UFA, foi uma das principais empresas da indústria cinematográfica do início do século XX, responsável pela produção de grandes clássicos como O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, e O Anjo Azul, de Josef Von Sternberg. Sua fundação deu-se através de uma ação do governo alemão em conjunto com grupos privados, unindo interesses de disseminação ideológica por parte do governo com interesses de gerar lucros por parte dos grupos privados.

Seu modo de produção industrial assemelhava-se ao dos grandes estúdios Hollywoodianos, inclusive o conteúdo dos filmes era semelhante. Porém a diferença entre Estados Unidos e Alemanha era que esta havia sido derrotada da Primeira Guerra Mundial, e encontrava dificuldades enormes para estabelecer relações internacionais. Com isso, os filmes alemães quase não conseguiam ser exibidos do exterior, fazendo com que a UFA, e outras empresas menores, investissem em seu próprio país, até porque os filmes estrangeiros quase não entravam nas salas de exibição alemãs. Isso fez com que o público consumisse suas próprias produções, investindo dinheiro numa indústria nacional e gerando profissionais capacitados e experientes nas mais diversas áreas, produção, direção, atuação, fotografia, entre outros. O que fez toda a diferença quando esses mesmos profissionais migraram para os Estados Unidos, perto da Segunda Guerra Mundial.

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Assim como vários países europeus no fim do século XVIII, a Alemanha corria atrás de tecnologia, em especial uma tecnologia de reprodução fotográfica. Em outubro de 1895 os irmãos Skladanovsky criaram o bioscópio, aparelho semelhante ao cinematógrafo dos irmãos Lumière.

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Biscópio

Na década seguinte, também não ficou atrás quando as primeiras estruturas de exibição para curtas-metragens começaram a se estabelecer, e muito menos quando as primeiras salas de cinema se estruturaram, ou quando os longas-metragens chegaram ao mercado. Porém, nos primeiros vinte anos, o cinema nacional alemão não se desenvolveu tão bem como outros países da Europa. Até o ano de 1911, aproximadamente, a Alemanha produzia somente 10% dos filmes exibidos em seus cinemas, importando a maior parte da programação da Itália, da França, da Dinamarca e dos Estados Unidos.

O período anterior à Primeira Guerra Mundial foi marcado por uma grande dificuldade para se estabelecer na esfera doméstica. Quando a Guerra começou, o país estava excluído do circuito de distribuição internacional e, com a campanha antigermânica liderada por Hollywood a partir de 1916, foi necessário que a indústria cinematográfica alemã suprisse sozinha seu mercado interno, e também que produzisse filmes de guerra para manter a moral da população e dar respostas às ofensas das cinematografias internacionais.

Com o intuito de realizar propaganda de guerra através de documentários, o Estado alemão, em conjunto com grandes empresas privadas, em 1916 criou a empresa cinematográfica Deulig (Deutsche Lichtbild-Gesellschaft); no início de 1917, criou a agência governamental fornecedora de filmes e de salas de exibição às tropas, Bufa (Bild-und Filmamt). Porém, essa estrutura não supria as necessidades do Reich e da elite alemã. Então, novamente com o apoio de grandes grupos privados, o Estado alemão fundou, em dezembro de 1917, a UFA (Universum Film Aktiengessellschaft). Ao anexar as três principais cinematografias do país (a Pagu, de Paul Davidson; a Messter, de Oskar Messter; e a Nordisk, de David Oliver) e diversas produtoras menores, a nova companhia passou a centralizar a maior parte da produção, distribuição e exibição de filmes na Alemanha, tornando-se um dos maiores empreendimentos europeus da área. Voltada para garantir uma indústria cinematográfica financeiramente viável, para servir tanto às necessidades de entretenimento do público como aos propósitos de informação do governo, a UFA foi a primeira corporação de cinema totalmente integrada do país.

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Em 1918, o Reich privatizou a companhia, transferindo suas ações para o Deutsche Bank, que praticamente não mudou a conduta da empresa, nem seu caráter conservador, nacionalista e autoritário. Nesse mesmo ano, dava-se inicio à República Weimar, que assumia o governo da Alemanha em um terreno de caos e desolação, após o fracasso na Primeira Guerra Mundial. Tal situação foi extremamente vantajosa para a indústria cinematográfica alemã, principalmente para a UFA, por diversos motivos: a empresa sobreviveu à guerra com ampla capacidade de produção e uma equipe de técnicos e artistas bem treinados; com a intervenção do governo durante a guerra, ela estabeleceu uma relação significativamente boa com a elite, conseguindo inclusive convencer empresários a investirem nesse mercado; a censura nos filmes, por parte do governo, chegara ao fim.

Essa nova situação ocasionou numa queda na produção de filmes de propaganda e num aumento da produção de filmes comerciais, especialmente visando a exportação, uma vez que o mercado interno não dava o retorno financeiro esperado. Entretanto, os filmes germânicos encontraram um forte boicote internacional. Para romper com esse bloqueio, a UFA se viu obrigada a assegurar direitos e salas de cinemas em países neutros, como a Suíça, a Holanda e a Espanha.

Logo de início a UFA começou a construir sua reputação artística apostando em filmes de prestígio, como as reconstruções históricas e as comédias de Ernest Lubitsch. Em 1921 foram reabertas as importações de filmes estrangeiros em 15%, o que permitiu à Alemanha retomar relações com cinemas internacionais. Neste ano ainda alcançou projeção internacional quando a produtora Decla Bioscop, de Erich Pommer, foi adquirida pela UFA. Sob a liderança de Pommer, a empresa entra em sua época de ouro, graças ao trabalho de Fritz Lang com Os Nibelungos (1922-24) e Metropolis (1927), de F.W. Murnau com A Última Gargalhada (1924) e Fausto (1926).

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Como consequência por ter incorporado várias produtoras de diversos tamanhos em uma empresa só, a UFA passou a ter os direitos sobre uma grande variedade de filmes. Essa amplo catálogo permitia alimentar as diversas salas de cinema que possuía. Mesmo sem dominar totalmente o mercado, apenas 10% das salas exibidoras, era dona das maiores e melhores salas do país.

Nessa época, década de 1920, a produção anual chegava a 600 filmes, possuía mais de cinco mil empregados e ainda assim toda sua estrutura (direitos dos filmes em livros, filmes e músicas, aluguel de equipamentos e um departamento de publicidade) não era suficiente para arrebatar lucros significativos. Nesse meio tempo, a competição por capital investidor começou a influenciar o conteúdo e a forma dos filmes. Hollywood investia em filmes falados, e os filmes europeus, incluindo os alemães, passaram a investir em pesquisas na nova tecnologia também. Porém o acréscimo das falas dificultou a exportação, forçando a indústria alemã a investir em cinema doméstico, que preferia assistir aos filmes norte-americanos. Apesar de a UFA ter apoiado com vigor experimentos com o som, os custos absurdos para a realização de Metropolis, em 1927, direcionou a empresa para uma crise financeira, culminando no fechamento dos estúdios de som. Para tentar amenizar sua situação, a UFA assinou o contrato “Parufamet” (Parufemt era o nome da distribuição fundada entre os estúdios norte-americanos Paramount Pictures e Metro-Goldwyn-Mayer, que juntas emprestaram mais de quatro milhões de dólares para a UFA em dezembro de 1925). O contrato também presumia a distribuição de vinte filmes de cada um dos estúdios dentro da Alemanha, e de filmes alemães nos Estados Unidos.

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Ainda como consequência da crise, Erich Pommer deixou o cargo de chefe de produção e Alfred Hugenberg comprou a UFA e suas 140 empresas, 134 salas de cinema e dois complexos de estúdios. O objetivo de Hugenberg era manter a empresa em mãos nacionais, mantendo o nacionalismo vivo. Em dois anos, Alfred recupera a empresa e contrata Pommer novamente.

Foi somente depois de a indústria norte-americana ter estabelecido o filme sonoro como regra e de ter popularizado a nova tecnologia no mercado doméstico, só depois disso que a Alemanha produziu seu primeiro longa-metragem falado. Produzido pela UFA, o filme realizado em 1929 chamava-se “Melodie des Herzens”, dirigido por Hans Schwarz.

Aproveitando a deixa, a nova equipe de Erich Pommer, incluindo Billy Wilder e Robert Liebemman, investe na produção de uma série de filmes que combinam canções e danças, a começar por Melodie dês Herzens e O Anjo Azul, antecipando os musicais de Holywood.

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Mas, em 1933, Adolf Hitler é nomeado Chanceler da Alemanha, Joseph Goebbels é nomeado Ministro da Propaganda, tornando-se chefe da indústria cinematográfica do país, e os Nacionais Socialistas passam a dominar. Isso resulta em uma série de mudanças na indústria alemã de cinema, através de algumas medidas, sendo algumas delas o estabelecimento de uma instituição bancária semigovernamental para subsidiar o orçamento de filmes; a criação de uma organização profissional controlada pelo estado, na qual todos os empregados do meio cinematográfico deveriam se filiar; e a revisão da legislação da censura de filmes, para ordenar a censura prévia de roteiros. Além disso, Hitler afirmou que o país precisava passar por uma “descontaminação moral” da cultura alemã, sendo ela a retirada de todos os produtos culturais que contradiziam a ideologia social-nazista e a proibição do desempenho de judeus ou qualquer pessoa associada à esquerda política em toda e qualquer função dentro do mercado cinematográfico; presumia uma forte estrutura empresarial hierárquica, baseada no princípio da sincronização das atividades políticas; e, por último, decretava o encerramento oficial da crítica cinematográfica que incentivava a “observação do cinema”. Com isso, a UFA teve seus empregados judeus demitidos e os filmes de propaganda tomam conta de seus estúdios.

Com a intensificação do governo nazista e com a nacionalização da indústria cinematográfica, o Estado cria uma mega estrutura sob seu controle, a UFI (UFA Film GmbH), resultado da fusão das quatro maiores empresas do mercado, sendo elas UFA, Terra, Tobis e Bavaria. Devido ao seu controle estatal, a UFI passa a produzir filmes antissemitas e militaristas, sem deixar de lado as comédias e melodramas. Devido à perseguição política, muitos dos que ainda não haviam deixado o país até o momento, deixaram logo em seguida. É o caso de profissionais como Billy Wilder e Fritz Lang, que se refugiaram nos Estados Unidos e passaram a trabalhar para os estúdios em Hollywood.

Nesse meio tempo, em 1941, a UFA roda o primeiro filme em cores da Alemanha Frauen Sind Doch Bessere Diplomaten. Quatro anos mais tarde, com o fim da Segunda Guerra Mundial, as forças aliadas tomaram conta da UFI e dividiram-na com o objetivo principal de prevenir a reestruturação do cinema alemão nacional, e tendo como consequência a facilitação da entrada de filmes estrangeiros no país. E para piorar, o mercado cinematográfico alemão ficou polarizado devido à Guerra Fria. Do lado ocidental, o cinema cresceu como um produto, assemelhando-se ao modo de produção Hollywoodiana. Já no lado oriental, cresceu como forte instrumento para reeducação popular, junto às instituições de ensino. Além disso, os antigos estúdios da UFA, confiscados pelo governo soviético, foram repassados para a DEFA (Deutsche Film-AG), uma companhia alemã sob supervisão soviética.

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Em 1949, os governos militares da Inglaterra e dos Estados Unidos criam uma legislação que determina a administração dos interesses cinematográficos alemães ficarem aos cuidados de um fundo até poderem ser vendidos novamente, e proíbem a utilização do nome UFA. Somente em 1953, com a legislação menos rígida, o governo germânico, novamente com o apoio do Deutsche Bank. Em 1964, a nova UFA é adquirida pelo grupo Bertelsmann, que estava interessado somente nos direitos musicais. Ainda na mesma década, foi criada a Fundação F. W. Murnau para adquirir e administrar o catálogo de mais de três mil filmes da UFA antiga. Em 1972, o empresário Heinz Reich adquire as salas de cinema da UFA, mas Bertelsmann manteve o nome da empresa, utilizada ainda hoje.

 

Não é só coisa de criança!

Dentro do cinema, as animações são consideradas um gênero à parte dos demais, podendo ser inclusive rotulado como um gênero infantil. Porém não é de hoje que desenhos animados, de curta e longa metragem, têm como alvo o público adulto. Desde os primórdios do cinema, quando as exibições ainda eram mudas, já havia filmes do gênero que não eram voltados ao público infantil. Inclusive grandes gênios do cinema mudo chegaram a trabalhar com o estilo animado, como o soviético Dziga Vertov, no ano de 1924, com o filme “Soviet Toys”.

Soviet Toys (Dziga Vertov, 1924 – URSS).

Quando o assunto é desenho, não podemos deixar de lado o mestre Walt Disney, que, com sua primeira animação, teve uma das produções mais caras da época: 1,5 milhão de dólares. “A Branca de Neve e os Sete Anões”, de 1937, trata de questões profundas e complexas, que os pequeninos que assistem deixam passar. Branca de Neve mora somente com o pai, que se casa com outra mulher. Esta não suporta a presença do esposo, quem dirá da enteada, tendo se casado somente por interesse. Uma vez o homem morto, para não dividir suas posses e riquezas, manta matar a garota, que foge de casa numa tentativa de salvar sua vida. É uma história pesada para uma criança assistir, e muito densa para compreender seu real significado.

“A Branca de Neve e os Sete Anões” (Walt Disney, 1937).

Outro filme, também da Disney, que não é nem um pouco infantil é “O Rei Leão”, de 1994. Ele leva o sistema monárquico ao mundo animal para poder tratar de assuntos intensos até mesmo para adultos. Um irmão mata o outro para tomar seu lugar no trono, e para ter certeza de que não será deposto, manda matar o sobrinho. O príncipe consegue fugir e passa a viver praticamente na miséria por muitos anos, até atingir a idade adulta. Sua prima, por parte da família da mãe – portanto não é uma das herdeiras do trono – é obrigada a buscar alimento fora das terras do reino e acaba encontrando o jovem, que estava sendo considerado como morto. A garota vê nele a esperança encarnada e o convence a tomar seu lugar de direito. Porém, para isso ele deverá matar o próprio tio, irmão de seu pai, sangue de seu sangue. As crianças podem não perceber, mas não há nada de fofo na história que elevou o felino ao posto de rei da selva. E essa é só o enredo principal, ainda tem-se questões como a igualdade entre diversas raças, os felinos superiores e os inferiores, entre outros.

“O Rei Leão” (Walt Disney, 1994).

Cover of "Spirited Away"

Cover of Spirited Away

Pulando agora para o Oriente, mais especificamente o mundo das animações, o Japão. Um dos cineastas na área de animação mais reconhecidos mundialmente é Hayao Miyazaki, criador de “Princesa Mononoke”, “A Viagem de Chihiro”, “O Castelo Animado” e “Ponyo”, entre outros, sendo “A Viagem de Chihiro” o mais famoso, chocando o mundo (ocidental, principalemnte) ao misturar elementos fantásticos à cultura tradicional japonesa. O diretor aborda temas de solidão, sacrifício, companheirismo e escravidão em um filme que poderia muito bem ser alugado em uma locadora por uma vovó querendo divertir seus pequenos netinhos. Não que não possa ocorrer, porém as crianças podem vir a se assustar e a ter pesadelos durante a noite.

“A Viagem de Chihiro” (Hayao Miyasaki, 2001 – Japão)

E por último, mas não menos importante, “Ghost in the Shell” e “Akira”, dois filmes que mudaram não só a maneira de se criar animações, mas também influenciou inúmeros filmes de ficção científica, incluindo a saga “Matrix”. “Ghost in the Shell” trata de inteligência artificial, em uma Tókio de 2029, onde é quase impossível o discernimento entre seres humanos e robôs, e onde esses já possuem sentimentos e relações praticamente humanas, e um grupo seleto de cientistas está desenvolvendo almas para os robôs. As máquinas já controlam metade do mundo e ocupam cargos de alta importância, e começam a se questionar a respeito de seu papel no mundo.

“Ghost in the Shell” (Mamoru Oshii, 1995 – Japão)

Cover of "Akira [Blu-ray]"

Cover of Akira [Blu-ray]

“Akira”, 1988, também possui um tom meio apocalíptico, quando uma nova Tókio é construída por cima dos destroços nucleares da antiga, e esta nova sofre atentados terroristas.

O governo mantém crianças com poderes especiais trancadas em um hospital, onde são feitos exames e uma série de testes, usando-as como cobaias. É um filme muito violento, tal qual o anterior, e além de envolver um pouco do fantástico, possui uma boa parcela de política e ficção científica, assuntos pouco inteligíveis pelo público infantil.

“Akira” (Katsuhiro Ôtomo, 1988 – Japão).

Esses, como tantos outros, são filmes que, por mais antigos que possam ser, e por mais infantis que suas histórias possam parecer, continuam tão atuais como no dia em que foram criados, pois, além de abordarem temas universais, abordam de maneira complexa e profunda.

Festival Internacional de Cinema em Curitiba

Curitiba é conhecida, entre outras coisas, por incentivar a cultura e as artes. Dentro dessa proposta, a cidade sediará o II Olhar de Cinema Festival Internacional de Curitiba.

O Olhar de Cinema, Festival Internacional de Curitiba, foi criado em 2012 com o objetivo de conectar o público exigente com filmes ousados, com foco em filmes autorais e ousados, com exibição na Cinemateca de Curitiba e no Espaço Itaú de Cinema no Shopping Chrystal.

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Esse ano, a segunda edição acontecerá dos dias 6 a 14 de junho de 2013, a partir das 14 horas, com diversas exibições ao longo do dia, com exibições em Cascavel, Londrina, Maringá, Pato Branco, São José dos Pinhais e Curitiba, sendo na capital os mesmos locais do ano passado (Cinemateca de Curitiba e Espaço Itaú de Cinema).

Ao todo serão dez mostras de filmes, sendo elas Competitiva Internacional de Curta Metragem, Competitiva Internacional de Longa Metragem, Competitiva Olhares Brasil de Curta Metragem, Competitiva Olhares Brasil de Longa Metragem, Foco Alemanha, Mirada Paranaense, Novos Olhares, Olhar Retrospectivo, Outros Olhares e Outras Exibições. Ao fim dessa postagem, você encontrará os prêmios aos quais os filmes estarão concorrendo.

Segue no link abaixo a vinheta oficial do Festival.

Para as seções de longa metragem será cobrado o valor de R$5,00 (cinco reais) a inteira, e para as seções de curta metragem o valor será de R$1,00 (preço fixo). Os ingressos já estão à venda nos locais de exibição.

Mais informações serão divulgadas no decorrer do festival.

Você poderá acompanhar a programação completa no site.

 

Premiação

Competitiva Internacional

Longa Metragem:

– Prêmio Olhar (melhor filme)

– Prêmio Especial do Júri

– Prêmio de Contribuição Artística

Curta Metragem

– Prêmio Olhar (melhor filme)

– Prêmio de Contribuição Artística


Competitiva Olhares Brasil

Longa Metragem:

– Prêmio Olhar (melhor filme)

Prêmio Especial do Júri

– Prêmio de Contribuição Artística

Curta Metragem

– Prêmio Olhar (melhor filme)

– Prêmio de Contribuição Artística

Outros Prêmios

– Prêmio Novo Olhar (melhor filme da mostra Novos Olhares)

– Prêmio da Crítica para melhor longa da Competitiva Olhares Brasil e melhor longa da Competitiva Internacional

– Prêmio do Público para melhor longa e curta da Competitiva Internacional e Olhares Brasil

– Prêmio Aquisição da RPC para melhor curta da Mirada Paranaense

Quem inventou o cinema?

O Cinema teve início aproximadamente em 1895, e em vários lugares ao mesmo tempo. Na França, os irmãos August e Louis Lumière criaram o cinematográfo. Na Alemanha os irmãos Skladanowsky surgiram com uma máquina semelhante, o bioscópio. E nos Estados Unidos o famoso inventor Thomas Edison criou o cinetógrafo e o cinetoscópio. As três invenções possuíam praticamente o mesmo princípio: captar e reproduzir imagens em movimento.

Os irmãos Lumière vinham de uma família de empresários, seu pai possuía uma fábrica de materiais fotográficos e seu nome já era conhecido no mercado.

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O cinematógrafo, criado por eles, funcionava através de uma manivela ao lado da câmera, capturando 16 fotos por segundo, aproximadamente. O mesmo mecanismo usado para filmar era usado para projeção, e juntando tudo isso com seu peso leve e seu design portátil, era uma invenção muito prática e logo fez sucesso.

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Em menos de uma década já haviam vários representantes da empresa Lumière gravando ao redor do mundo os mais diversos temas, com o objetivo de levar o mundo para a França. “Você não conhece as pirâmides do Egito? Sem problemas, nos trazemos as pirâmides até você através do cinema!”. Este foi um de seus filmes um pouco mais elaborados, sendo uma das primeiras comédias, O regador regado.

Thomas Edison era um inventor, possuía uma grande empresa com o simples propósito de inventar coisas úteis, ou não, que ainda não foram criadas. Uma dessas invenções foi o cinetógrafo, uma máquina grande, pesada, que precisava de energia elétrica para funcionar, captava 46 fotos por segundo, enquanto o cinetoscópio, outra máquina grande e pesada, reproduzia os filmes, em looping.

Image Devido ao tamanho das duas invenções, Edison não podia ir para as ruas filmar. É dele o primeiro estúdio cinematográfico, o Black Maria. O estúdio tinha esse nome por ser inteiro preto, sem janelas, assemelhando-se ao camburão de polícia da época. Os filmes até então precisavam de muita luz para serem sensibilizados e imprimirem alguma imagem no negativo, então Edison fez teto móvel e na sua base colocou trilhos. De acordo com a luz do sol, girava o estúdio, para que a luz entrasse e iluminasse o objeto a ser filmado.

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Depois de revelar o negativo, o filme era colocado no cinetoscópio, com vários filmes de poucos segundo em um looping. Para assistir, bastava colocar uma moeda e você poderia apreciar uma gag (pequena história engraçada).

Os irmãos Skladanowsky logo foram levados ao esquecimento. A diferença de sucesso de Edison para os Limière se deve, entre outros fatores pela praticidade do cinematógrafo (leve, funcional, prático, um mesmo aparelho filma e reproduz) conta a falta de conveniência do cinetógrfo e do cinetoscópio (máquinas grandes, pesadas, não podiam ser transportadas, o primeiro era para captar imagens o segundo para reproduzir). Além disso, os filmes dos Lumière podiam ser vistos por várias pessoas ao mesmo tempo, você só precisava de uma sala escura, algumas cadeiras e uma parede em branco e aí está sua sala de projeção (ou sala de cinema). Já os filmes do inventor norte-americano só podiam ser vistos por uma pessoa de cada vez, uma vez que eram exibidos em um visor pequeno, uma espécie de luneta onde o espectador encostava os olhos e via o filme passar. Os irmãos Skladanowsky logo foram levados ao esquecimento. Não demorou muito para os franceses passarem à frente e roubarem todos os holofotes para si, situação que durou por vários e vários anos.

Tem gente nova no pedaço!

Isso aí! O Venturarte agora conta com a minha participação, Isabele Orengo. Paranaense de nascença, gaúcha de coração, adoro livros, fotografias, desenho e principalmente filmes (faço faculdade de Cienema).  Pretendo trazer para o blog um pouco da minha visão sobre o cinema, trabalhando questões históricas e contemporâneas, com o objetivo de criar um diálogo com quem adora a sétima arte e quer conhecer um pouco mais desse mundo maravilhoso!

A princípio farei uma postagem quinzenal, começando pela semana que vem. Espero fazer meu melhor, e sempre que quiserem, podem comentar a respeito dos mais diversos assuntos para trocarmos ideias 🙂

Sugestões e críticas são sempre bem vindas!

Abraços apertados,

Isabele Orengo